Evitamento: quando nos é útil?

O nosso funcionamento psicológico e comportamental é influenciado por fatores biológicos, mas somos também simultânea e inevitavelmente produto das nossas experiências. Essas experiências moldam a forma como respondemos aos desafios que se nos atravessam no quotidiano.

Desde cedo, ao longo do nosso crescimento e desenvolvimento, somos expostos a situações que de nós requerem uma aprendizagem da melhor forma de nos preservarmos. Por exemplo, aprendemos que se um determinado estímulo ou situação pode prejudicar a nossa integridade (por exemplo, um animal perigoso), necessitamos de o evitar para nosso próprio bem, atribuindo-lhe de forma natural um carácter mais aversivo. As dificuldades surgem quando este tipo de defesas, criadas porque nos serviram um propósito e uma utilidade numa determinada fase da nossa vida, passam a ter um carácter automatizado e generalizado a todo o tipo de situações. Isto é, quando passamos a aplicar as mesmas regras de evitamento a situações que, embora parecendo semelhantes no nível de perigo, não o são necessariamente. Ainda por outras palavras, quando encaramos automaticamente como evitáveis experiências que, nem sempre sendo agradáveis, necessitam de ser vividas. Se nos privarmos de uma forma constante de determinadas experiências, devido ao receio mais ou menos consciente do seu impacto, poderemos estar a perder a oportunidade de com elas desenvolver novas ferramentas essenciais para o nosso desenvolvimento pessoal.

Vejamos um exemplo: se passamos por uma experiência negativa de exposição pública, onde nos sentimos julgados e criticados, a tendência para nos protegermos poderá levar a que passemos a evitar experiências semelhantes, como forma de potenciar o nosso bem-estar. E, de facto, há determinados tipos de exposição que devemos evitar. Existem contextos de grande insegurança e perigo aos quais não temos que, nem devemos, estar expostos. No entanto, outros haverá que poderão ter apenas ficado associados a essa experiência anterior mais aversiva. Neste sentido, falamos tanto da criança que se sentiu humilhada no seu grupo de colegas, como do profissional que experienciou um bloqueio ao realizar uma importante apresentação para os seus superiores. Ambos poderão ter automatizado um comportamento defensivo de evitamento das situações de exposição.

Isto significa que nem todos os evitamentos constituem algo que devemos deixar ir. Devemos, isso sim, analisar cada situação. Se evitarmos situações em que tenhamos de dançar, mas não tivermos qualquer interesse em dançar ou aprender a fazê-lo, será que temos mesmo que contrariar esse evitamento? Talvez não. Por outro lado, se o evitamento se generalizar à exposição pública, e o nosso desenvolvimento ou crescimento pessoal e/ou profissional estiver dependente de alguma exposição (e.g., aprendizagem de uma nova atividade, apresentações, falar em público), poderá ser importante trabalharmos esses automatismos.

Então, como fazê-lo? Podemos pensar neste tema dentro daquilo a que, na Psicologia, se chamam processos de condicionamento. A dada altura da nossa vida, mais longínqua ou mais recente, podemos ter associado uma determinada situação a uma determinada resposta emocional (e.g., ansiedade, medo), que por sua vez se traduz num comportamento de evitamento. Uma das formas de ir reduzindo essa resposta emocional e comportamental (a resposta condicionada) é o contacto progressivo, controlado, e seguro, com o tipo de contexto ou situação que despoletou inicialmente essa resposta. Este contacto em contexto seguro é aquilo que, muitas vezes, começa nos processos de acompanhamento psicológico. Ao ritmo de cada um, de forma progressiva, quebram-se automatismos para as situações em que estes deixaram de nos ser úteis, mantendo-os quando nos são úteis.

António Farinha Fernandes – Psicólogo da Mental8Works

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